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Cor em interfaces: como escolher cores que trabalham por ti

As três rodinhas de uma cor, a regra 60-30-10, neutros com personalidade, o que querem dizer o vermelho, o laranja e o verde, e o modo escuro. Explicado de forma simples, com exemplos dos meus projetos.

A regra 60-30-10 com as cores do site: uma grande área creme com o número 60, uma faixa azul com o 30 e uma faixa estreita laranja com o 10.

No post sobre contraste vimos como garantir que as cores se leem. Agora vem a pergunta que está antes dessa: como é que se escolhem as cores?

Numa app ou num site, a cor não está lá só para ficar bonita. Tem trabalho para fazer, como um sinaleiro: mostra para onde olhar, junta o que pertence ao mesmo grupo, diz o que se pode carregar e avisa quando algo correu bem ou mal.

Eu também começo muitas vezes «a olho», a experimentar até parecer bem. Mas depois organizo tudo num sistema, porque é isso que faz dezenas de ecrãs parecerem da mesma família. É esse sistema que explico aqui, com exemplos dos meus projetos.

As três rodinhas de uma cor: HSL

No computador, uma cor costuma escrever-se assim: #D4861A. Isto é ótimo para a máquina, mas a nós não diz nada. Por isso prefiro pensar em HSL, que é como ter três rodinhas para afinar uma cor:

  • Matiz (H): qual é a cor. Imagina um arco-íris enrolado num círculo: o 0 é vermelho, o 120 é verde, o 240 é azul. É um ângulo, de 0 a 360.
  • Saturação (S): quanta cor tem. A 0% é cinzento; a 100% é a cor mais viva possível.
  • Luminosidade (L): se é clara ou escura. A 0% é preto; a 100% é branco.

Com estas rodinhas fica fácil criar «irmãs» de uma cor. O laranja deste site é hsl(35, 78%, 47%). O laranja claro que uso sobre o azul, #F6C27A, tem o matiz exatamente igual (35°): só rodei a rodinha da luminosidade. Já o laranja escuro dos títulos pequenos, #A0570E, também roda um pouco o matiz para o vermelho (30°). É um truque conhecido: quando escureces uma cor quente sem mexer em mais nada, ela tende a ficar com ar de castanho «sujo».

As três componentes do HSL em barras: matiz com o laranja a 35° e o azul a 214°, saturação do laranja a 78%, e luminosidade com três versões do laranja a 34%, 47% e 72%.
As três versões do laranja do site, lado a lado em HSL.

Uma cor, muitos tons

Uma marca precisa de poucas cores, duas ou três. Mas um site precisa de muitos tons de cada uma: um fundo clarinho para destacar uma caixa, uma borda, a cor de um botão quando passas o rato por cima, o texto...

Em vez de inventar cada tom à sorte, faço uma escada: a mesma cor, do degrau 50 (quase branco) ao degrau 900 (quase preto).

Duas escalas de 50 a 900: uma do azul da marca, em que o #1E3A5F fica no 800, e outra do laranja da marca, em que o #D4861A fica no 500.
Escadas criadas a partir das cores da marca: o mesmo matiz, cada vez mais escuro.

Assim as decisões ficam fáceis: o fundo de um alerta é o degrau 50, a borda é o 200, o texto é o 800. E se outra pessoa pegar no projeto, chega aos mesmos tons sem ter de adivinhar.

A regra 60-30-10

Pensa numa roupa: calças e camisola em cores calmas (a maior parte), um casaco de outra cor e um pormenor que salta à vista, como uns ténis vermelhos. Em design, chama-se a isto a regra 60-30-10:

  • 60% de uma cor dominante, normalmente calma: os fundos.
  • 30% de uma cor secundária: o cabeçalho, as secções, os botões.
  • 10% de uma cor de destaque: só o que tem de chamar à atenção.
À esquerda, a regra 60-30-10 com as cores do site: creme a 60%, azul a 30% e laranja a 10%. À direita, uma maqueta de página com fundo creme, cabeçalho azul e um único botão laranja.
Mais ou menos assim está montado este site: creme, azul e um toque de laranja.

O mais importante são os 10%. Se juntasses aos ténis vermelhos um casaco vermelho e uma camisola vermelha, os ténis deixavam de se notar. Com o laranja deste site é igual: guardo-o para o que quero mesmo que se veja, como o botão «Falar comigo». Não é uma regra matemática; é um lembrete de que o destaque só funciona se for raro.

Neutros com personalidade

A maior parte de um ecrã são cores «neutras»: fundos, texto, bordas. Parecem só brancos e cinzentos, mas há um truque simples para o design parecer mais cuidado: não usar cinzentos puros. Pôr-lhes uma pitada de cor, como uma pitada de sal na comida.

O mesmo cartão «Despesas fixas» duas vezes. À esquerda com cinzentos puros (#F5F5F5, #6B6B6B, #DDDDDD). À direita com neutros tingidos: fundo creme #FAF9F7, texto secundário azulado #40405A e bordas lilás muito leves #E6E4EE.
À esquerda, cinzentos sem cor nenhuma. À direita, os neutros deste site.

O fundo deste site, #FAF9F7, não é branco: é um creme muito leve e quentinho (matiz 40°). O texto secundário, #40405A, não é cinzento: tem um pouco de azul (240°). Sozinhas, estas diferenças quase não se notam. Mas juntas fazem as cores parecer da mesma família, porque os neutros «conversam» com o azul da marca.

Harmonias: cores que se dão bem

Lembras-te do arco-íris enrolado num círculo? Chama-se roda das cores, e há combinações clássicas:

  • Complementares: cores em lados opostos da roda. Fazem faísca: dão energia, mas cansam se forem usadas em partes iguais.
  • Análogas: cores vizinhas. São calmas e combinam sem esforço.
  • Triádicas: três cores à mesma distância, em triângulo. São alegres, mas difíceis de equilibrar.
Três rodas das cores: complementar, com o azul e o laranja do site em lados opostos; análoga, com três azuis vizinhos; e triádica, com três cores à mesma distância.
O azul e o laranja deste site estão quase exatamente em lados opostos da roda.

O azul deste site está nos 214° e o laranja nos 35°. Estão a 179° de distância, quase exatamente opostos. É por isso que o laranja salta tanto à vista em cima do azul. E é também por isso que o uso pouco: duas cores opostas em partes iguais «discutem»; com uma a mandar e a outra só como destaque, completam-se.

Cores com significado

Algumas cores já vêm com significado, como num semáforo: verde é avançar, amarelo é atenção, vermelho é parar. Nos ecrãs aprendemos o mesmo. Quando alguém vê vermelho, pensa logo «algo correu mal», antes de ler uma única palavra. É uma grande vantagem, mas só funciona se eu respeitar estas regras e as usar sempre da mesma forma.

Gosto de as arrumar como uma escala de urgência, do que é só informativo até ao que pede ação imediata:

Quatro estados do menos para o mais urgente: informação a azul, sucesso a verde, aviso a laranja e erro a vermelho. Cada um diz quando se usa e dá um exemplo, como «Pagamento aprovado» ou «Pagamento recusado».
Quatro estados, do menos ao mais urgente. Cada um com fundo suave, cor escura para o texto e um ícone próprio.

Vermelho: erro, perigo e ações sem volta

O vermelho é a cor mais forte que tenho, por isso uso-a com muito cuidado. É como o alarme de incêndio: se tocar a toda a hora, as pessoas deixam de ligar. Serve para três coisas:

  • Erros: algo falhou e a pessoa tem de fazer alguma coisa. Um pagamento recusado, um campo mal preenchido, uma ligação que caiu.
  • Ações destrutivas: apagar uma conta, eliminar um ficheiro, cancelar uma subscrição. Tudo o que não dá para desfazer.
  • Valores negativos: despesas, descidas, saldos abaixo de zero.
À esquerda, uma janela «Apagar a conta?» que explica o que se perde, pede para escrever APAGAR e tem um botão vermelho «Apagar para sempre» ao lado de «Cancelar». À direita, um campo de email com borda vermelha e a mensagem «Falta o @ no email.».
À esquerda, uma ação sem volta: o botão diz exatamente o que acontece. À direita, um erro mostrado junto do campo, com a forma de o resolver.

Num erro de formulário, a borda vermelha sozinha não chega. A mensagem tem de dizer o que falhou e como resolver («Falta o @ no email»), e tem de aparecer junto do campo, não só no topo da página.

Nas ações destrutivas, o vermelho funciona como um travão. O botão diz o que vai acontecer («Apagar para sempre», e não só «OK») e, quando o risco é grande, peço uma confirmação extra, como escrever a palavra APAGAR. E nunca uso vermelho num botão que não seja perigoso, como «Comprar» ou «Continuar»: seria tocar o alarme sem haver fogo.

Laranja e amarelo: atenção, ainda não correu mal

O aviso fica entre a informação e o erro: algo pode correr mal se a pessoa não fizer nada. O cartão que expira daqui a cinco dias, a bateria fraca, um pagamento a vencer, uma foto de capa em falta. É o amarelo do semáforo: «atenção», mas ainda não «para».

O problema é que o amarelo tem um contraste péssimo sobre branco. Como texto, mal se lê. Por isso nunca o uso para texto: uso-o como fundo, com texto castanho escuro por cima, ou troco-o por um laranja escuro.

Três avisos «Atenção: pagamento a vencer»: amarelo vivo como texto sobre branco com 1,92:1 (falha), texto castanho escuro sobre fundo amarelo com 6,96:1 (AA) e laranja escuro sobre branco com 6,80:1 (AA).
O amarelo vivo como texto dá 1,92:1. Como fundo, com texto escuro por cima, sobe para 6,96:1.

Verde: sucesso, aprovação e «está tudo bem»

O verde confirma: o pagamento foi aprovado, o formulário foi enviado, a tarefa está feita, o serviço está ligado. É também a cor de «disponível» e dos valores positivos. Como é uma cor que tranquiliza, a mensagem de sucesso deve ser curta e não obrigar a nada; muitas vezes até desaparece sozinha ao fim de uns segundos.

Há um cuidado a ter: um botão verde ao lado de um vermelho pode parecer igual para quem é daltónico (mostro isso no post sobre contraste). Por isso, a diferença tem de estar também na forma e no texto do botão.

Azul e cinzento: informação e coisas «em pausa»

O azul é a cor da informação: dicas, novidades, algo que está a acontecer, como um envio a decorrer. É também a cor clássica dos links. Não assusta nem festeja; só informa.

O cinzento marca o que está parado: um botão desativado, um rascunho, uma opção que não está disponível. Diz «isto existe, mas agora não conta». As regras de contraste não se aplicam a botões desativados, mas convém que se continue a perceber o que lá está escrito.

Como uso isto nos meus projetos

Três exemplos reais: o rodapé deste site com um ponto verde e a frase «Disponível para tempo inteiro e freelance»; o admin do blog com as etiquetas «Publicado» a verde e «Rascunho» a cinzento; e a minha app com «+ 40 €» a verde e «− 30 €» a vermelho.
No rodapé deste site, no admin do blog e na minha app, o significado vem sempre da cor e de uma palavra ou sinal.

No rodapé deste site, o ponto verde vem sempre com a palavra «Disponível». No admin onde escrevo estes posts, «Publicado» é verde e «Rascunho» é cinzento. Ao preparar esta imagem, medi esse verde e dava 4,13:1, abaixo do mínimo para texto pequeno, por isso escureci-o. Na minha app pessoal, as entradas de dinheiro são verdes e as saídas vermelhas, mas os valores levam sempre o sinal + ou −, para se perceberem mesmo sem cor.

Os significados mudam de país para país

Estas regras não são iguais em todo o mundo. O exemplo mais famoso é a bolsa: na Europa e nos Estados Unidos, verde quer dizer que subiu e vermelho que desceu. Na China é ao contrário, porque lá o vermelho está ligado à sorte e à prosperidade.

O mesmo gráfico de um índice a subir 2,4%: a verde com a legenda Portugal e Europa, e a vermelho com a legenda China.
A mesma subida de 2,4%: verde na Europa, vermelho na China.

Por isso tenho cuidado com a chamada «psicologia da cor». O que uma cor transmite depende do país, do contexto e até do produto. Numa interface, o que conta mais é o que as pessoas já conhecem e a consistência: se o vermelho quer dizer erro no ecrã de pagamento, tem de querer dizer erro em todo o lado.

Cor no modo escuro

O modo escuro não é virar as cores do avesso. Uma cor escura que se vê bem num fundo claro pode desaparecer num fundo escuro, como alguém vestido de preto numa rua sem luz. E cores muito vivas sobre preto parecem tremer e cansam a vista.

O mesmo cartão sobre fundo escuro duas vezes. À esquerda, com as cores do modo claro: o link e o botão azul quase desaparecem. À direita, com cores ajustadas e mais claras: tudo se lê bem.
À esquerda, as cores do modo claro em cima do fundo escuro. À direita, as mesmas cores, mais claras.

O que faço: um fundo cinza-azulado em vez de preto (#1E2128) e as cores de destaque mais claras, mas da mesma família. O azul da marca (214°) passa a #4A90D9 (211°), quase o mesmo matiz. Na minha app pessoal acontece o mesmo com as cores de estado: o verde de sucesso é #1A9C53 no modo claro e #32D95E no escuro, e o vermelho passa de #D92D20 para #FF5449.

Dar nomes pelo trabalho, não pelo aspeto

No código, as cores guardam-se em «caixinhas» com nome, chamadas variáveis. O truque é dar o nome pelo trabalho que a cor faz, e não pelo aspeto: --primary em vez de --azul, --text-2 em vez de --cinzento.

É como numa equipa de futebol: dizes «o guarda-redes» e não «o rapaz de amarelo», porque a camisola pode mudar e o trabalho continua o mesmo. No modo escuro, --primary continua a ser «a cor principal», só que com outro valor: #1E3A5F no claro e #4A90D9 no escuro. Se a variável se chamasse --azul-escuro, no modo escuro estaria a mentir. Neste site funciona tudo assim: mudo a cor num só sítio e o site inteiro acompanha.

As paletas dos meus projetos

As paletas de seis projetos: Portfolio Pessoal, Plantas Medicinais, RENATU, 3Dmania, Barquinha Parque e Painel Pessoal, cada uma com cinco ou seis amostras de cor e o respetivo código.
Cada projeto, a sua paleta. Quase todas seguem a mesma receita: um fundo neutro, uma ou duas cores de marca e neutros escuros para o texto.
  • Plantas Medicinais: verdes que lembram as plantas, com um laranja quente para os destaques.
  • RENATU: um único azul forte, com muito branco à volta.
  • Barquinha Parque: cores tiradas do próprio lugar: o azul do Tejo, o verde do parque e um dourado.
  • Painel Pessoal: fundo escuro, com verde e vermelho guardados só para o que é positivo e negativo.

O meu processo, passo a passo

  1. Começo por uma cor, a que melhor representa o projeto.
  2. Escolho os neutros, com uma pitada dessa cor ou de uma cor próxima.
  3. Junto um destaque, muitas vezes do lado oposto da roda, para usar com moderação.
  4. Faço as escadas de cada cor e escolho as cores de estado.
  5. Testo o contraste de todas as combinações que vou usar, nos fundos reais.
  6. Vejo tudo a funcionar, num ecrã a sério e nos dois modos, antes de dar a paleta por fechada.

Em resumo

  • Pensa nas cores com três rodinhas: matiz, saturação e luminosidade.
  • Faz escadas de tons em vez de escolher cores soltas.
  • 60-30-10: o destaque só funciona se for raro.
  • Neutros com uma pitada de cor parecem mais cuidados.
  • Vermelho só para erros, perigo e ações sem volta: o alarme gasta-se.
  • Amarelo serve de fundo, nunca de texto.
  • As cores de estado nunca trabalham sozinhas: levam sempre ícone, palavra ou sinal.
  • No modo escuro, clareia e suaviza em vez de virar do avesso.
  • Dá nomes às cores pelo trabalho que fazem.

Uma boa paleta não é a que tem as cores mais bonitas. É a que ajuda as pessoas a perceber, sem pensar, o que é importante, o que se pode carregar e o que está a acontecer.

Diogo Baraoo

Designer multidisciplinar · Sobre mim

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